segunda-feira, 6 de abril de 2026

Junto ao entardecer

 

Junto ao entardecer de um

   sonho escondido

De uma chuva cansada

Um lugar de ócio espera por ti

Abres a porta da memória e espiras

   rotas desconhecidas

Breves partes de uma peça escrita em

  pedras orvalhadas

Vaivém de paixões

As sombras escondidas por debaixo

  da pele

Falam-te de marés e de rostos

Lembras-te da noite que escorria em

   todas as direcções?

E da penumbra que te fitava dentro

   da alma dos Deuses?

Nos escondidos lugares onde aporta a

   quilha destroçada do teu navio

Há partes da tua pele lenta

Panos de linho, flores de tílias

Balouça o teu corpo no crepúsculo do amor

Falas de ti ao vento

Dizes-lhe que cintilas nas páginas

   abertas do tempo

E que escorregas pela sombra destapada

  das laranjeiras

Aromas...doçuras…

Sabes que podias ter sido feliz

Mas a melancolia acorda-te e

   senta-se contigo

E despertas em todos os caminhos por

   onde nunca andaste

Procuras saber qual a razão da morte

Olhas as tuas mãos...fitas o silêncio

E segues caminhando sobre a cinza

 desamparada

De uma treva feliz.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Ondulante abelha

 

Ondulante abelha

Sentes o sabor adocicado da romã

Recordas a delicadeza de um abraço

Ouço-te esbracejar na teia esquecida

Canto salgado de harpa nua

Adormeces dentro de um pensamento

És o intervalo inclinado do silêncio

Tens a magnifica fadiga de uma ternura etérea

Caminhas impoluta e bela

Sobre todos os meus desassossegos

Minha incerta flor de aloendro

Meu barco desamparado

Esqueço-me que dos teus olhos saem os meus

E mesmo assim…

Sento-me na pedra lisa do poente

E vejo-te como um brilho ferido

Enquanto de longe…chega o verão...

 

terça-feira, 31 de março de 2026

A hora tardia

Aqui vivemos na urgência da verdade

Buscamos o modo de dizer as coisas

Ardemos no instante em que as palavras

Nos saem da boca

Somos o silvo equidistante das lágrimas

No ardor dos nossos dias

Encontramos o impensável

A hora tardia...a voz

No canto das aves lembramos

O aroma do amanhecer

Somos sossegados dias

Passeando pelo regaço das ilhas

Breves velas de barcos acesos

Que ondulam na distância

Onde está o acidulado dos teus lábios

De onde vem o verão

Que nos chega da deriva dos tempos

Como uma música ansiosa

Descendo da tua cintura

Cobrindo-me de beijos. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Hás-de compreeender os dias

 

Hás-de compreender os dias

Hás-de sentir a mandíbulas

    das palavras

A morder-te as razões

Serás a ave que dobra o canto

E que voa e dorme sobre a

    tua história

Nas narinas da noite encontrarás o

   teu refúgio

Na expulsão da humidade secarás o

   corpo exausto

Serás o animal que com altivez

Cobre o rosto marcado pelas horas

Apanhas as migalhas que a

   nudez não cobre

Guardas contigo as frases mais belas

Nunca as dizes

Sabes que nos campos se guardam vidas

E que nas longas tardes vazias há

    reflexos de cristal

Docemente guardas todas tuas

    angústias

E dormes na noite ténue...

Junto ao entardecer

  Junto ao entardecer de um    sonho escondido De uma chuva cansada Um lugar de ócio espera por ti Abres a porta da memória e espira...